19 setembro

Sobre samambaias e medos

Comentários

39D41DF1-6FB8-4F07-82CD-4EE7E33A1406

Outro dia, em pleno embalo de mais uma metamorfose doméstica nesta casa, fui determinada ao mercado de plantas do bairro com a intenção, sem chance de ser contrariada, de adquirir um trio de samambaias. Antes de seguir com este relato, porém, é bom que vocês saibam que cresci com pavor de samambaias. Minha avó Luiza tinha várias plantas dessa espécie na versão metro. Unidas, elas compunham uma barreira verde que servia de cortina na porta do salão de festas da casa. Eu achava aquela versão verde das cataratas de Foz do Iguaçu uma coisa assustadora, apesar de bastante sedutora. À noite, perdi a conta de quantas vezes fui estrangulada por folhagens assassinas. Mas voltando às compras… Outro dia comprei três samambaias. Elas chegaram em casa com o destino traçado: fazer parceria decorativa com os azulejos dos anos 50 e servir de cenário para momentos tão emocionantes quanto escovar os dentes todos dias ou passar hidratante depois do banho. Descobri que não tinha mais medo de samambaias. Apenas a atração por sua peculiaridade existentecial permaneceu. Samambaias são como filhos pequenos, bem definiu uma amiga. Pedem cuidados e atenções diárias e simplesmente morrem quando deixadas a própria sorte. Tenho cuidado das minhas com amor. Removo cuidadosamente as folhinhas secas. Rego os vasos duas ou três vezes por semana. Outro dia bobeei e deixei uma delas por conta e risco de outro habitante da casa, pessoa de muito valor, porém menos devota às regras de sobrevivência das plantas do que eu. Não morreu por um triz. Salva pelo gongo no último minuto. Hoje dei uma piscada para ela e saquei que o medo é realmente uma armadilha. Imagina se eu não experimentasse enfrentá-lo. Se ficasse presa aos pesadelos infantis. Imagina?

comentários