11 fevereiro

O que a sua bagunça diz sobre você?

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Francis Bacon bem pleno na bagunça do quarto da casa em que morava e que virou seu estúdio

Francis Bacon bem pleno na bagunça do quarto da casa em que morava e que virou seu estúdio

Confesso que fiquei um pouco desapontada com os episódios da Marie Kondo na tevê. Amei os dois livros, que foram realmente libertadores de caminhos por aqui. Bem eu, que sempre me achei muito organizada e contida no acúmulo de coisas, tive vontade de repensar várias escolhas. Doei algumas muitas peças de roupa e troquei outras tantas com as amigas após a famosa arrumação-montanha (aquela em que as pessoas fazem uma pilha enorme com tudo o que têm em todos os guarda-roupas da casa), reorganizei a cozinha radicalmente, deixando tudo ainda mais ao alcance dos olhos. Tirei o detergente e a esponja de cima da pia (faz muita diferença, acredite…) e comprei um rodinho ótimo para deixar a superfície de pedra, onde preparamos as receitas, sempre sequinha. Tudo isso para dizer que… Depois dessa imersão com a expert japonesa que tem tantos admiradores quanto haters, minha casa nunca mais foi a mesma.

Comecei a dar ainda mais atenção aos pequenos rituais de todos os dias e inventei outros tantos. Assim que funciona, afinal, quando você adapta o que aprende a sua própria realidade. Também já não olho escandalizada para a bagunça dos outros. Apenas penso: o que a bagunça desta pessoa quer dizer para ela e não sobre ela. Pra mim, o caos nunca funcionou. Simplesmente não consigo pensar se o universo ao meu redor está desordenado. E mais: realizando minha meia ou uma hora (depende do tempo disponível no dia) de manutenção cotidiana, vou organizando a cabeça, muitas vezes me acalmo, em outras tenho ótimas ideias entre uma varridinha na cozinha e uma esticada de lençol no quarto de dormir.

Para pessoas que têm uma relação diferente da minha com o território doméstico, a bagunça pode simplesmente não ter significado. A bagunça pode ser uma extensão da maneira como a pessoa olha para o mundo, uma especie de aventura, um desbravamento da área. Buscar uma meia perdida durante 45 minutos pode ser a maneira que essa pessoa bagunceira encontra para organizar as próprias ideias, não é verdade? Lição que fica: cada um com seu cada um, como dizia uma amiga hoje distante (uma pena…) e bagunceira assumida e orgulhosa. Acho que por isso fiquei desapontada com as arrumações de MK no Netflix. A mesma fórmula para pessoas igualmente e exageradamente caóticas, mas completamente diferentes umas das outras. Se eu encontrasse com ela hoje, agradeceria pelos ensinamentos do livro várias vezes e contaria esse pensamento pra ela. Talvez ela esteja iludida sobre a América, onde a compreensão da ordem como algo divino, proveniente dos ricos ensinamentos monásticos orientais, nunca faça sentindo. Não como ela gostaria.

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