28 janeiro

A casa e a cidade

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Impossível ver essa imagem e não me lembrar do Japão. Quando morei por lá, nas proximidades da virada do milênio, a lavanderia de casa era a lavanderia do bairro. Logo… Lembrei do quanto a nossa vida cotidiana está relacionada ao lugar que escolhemos para morar. Isso porque, na minha singela opinião, o dentro de casa importa tanto quando o entorno de casa.

E de volta à lavanderia, lembro que lavar a roupa da semana era meio que um momento de meditação no meio da função. Sim, não era muito fácil carregar uma ou duas sacolas lotadas com as roupas da semana (inclusive as roupas de cama e banho) durante os dois quarteirões entre meu “apato” (como os japoneses apelidaram o nosso vulgo apê) e a lavanderia. Logicamente era um lugar tosco, sem glamour algum. O calor das secadoras misturado ao cheiro dos lencinhos perfumados que todos arremessavam na máquina durante a última etapa da secagem eram um alento no inverno e um tormento no verão.

Era, contudo, uma tarefa inevitável, especialmente no verão de 40 graus à sombra de Tóquio. Onde eu quero chegar? De volta ao percurso. Apesar do peso das sacolas cheias de roupas, o caminho era bom. Gostava de passar pelas mesmas pessoas atrás de suas bancas de legumes e peixes em conserva, de observar o entra-e-sai do suspeitíssimo pachinko  de Komagome, de esperar ansiosa pelo vendedor de batatas doces assadas nas noites de frio.

Enquanto as roupas lavavam, eu corria para tomar um café americano com uma torrada quentinha besuntada de manteiga. Depois voltava, colocava a roupa para secar e escolhia alguma trilha sonora para tocar no meu MD (antes do Spotify e do Deezer, em um passado longínquo, existiam MDs e suas simpáticas fitinhas que pareciam disquetes de computador. Era muito moderno na época, só para constar… ) Agora imagine se eu não tivesse esse entretenimento oferecido pelo entorno da minha casa para realizar uma tarefa praticamente obrigatória toda semana? Já parou para pensar no quanto o seu bairro importa no seu cotidiano?

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