O mundo está praticamente de
cabeça pra baixo. É preciso adaptar a receita, não tenho mais dúvidas. Pensei nisso enquanto preparava a reportagem do
UOL Estilo desta semana. Livros. Eles sempre têm boas respostas, mesmo que você não tenha feito nenhuma pergunta antes de folhear as páginas. Mesmo que seja um simples livro de receitas. Foi o que aconteceu hoje. Passei boas duas horas devorando o novo livro de Nigella Lawson: Nigella Express. É um livro de receitas. Ponto. Mas enquanto passava os olhos entre uma e outra, fui descobrindo formas de adaptar a minha atual receita de vida. Comecei selecionando as receitas que me deram vontade de ir para cozinha na hora. Umas 20, acho eu. Tratei logo de fazer cópias na minha máquina agora devidamente abastecida de tinta. Juntei todas numa pastinha transparente: a minha pastinha de mudanças instantâneas.
E decidi que, com platéia ou não, testarei cada uma delas ao longo dos próximos 30 dias. Não como penitência ou obrigação de trabalho. Mas pelo
prazer de descobrir novos sabores. E, claro, quando a platéia estiver presente, vou gostar ainda mais dessa história. Porque terei testemunhas dessa adaptação de receita. Virão os palpites, os comentários, bons ou ruins, as expressões de felicidade ou de pura decepção. Às vezes acontece e, com a melhor das intenções, você escorrega. Erra no sal, exagera na farinha, coloca pimenta demais...
Ir para cozinha sempre foi uma
terapia das mais prazerosas nesta Casa. Não por acaso, há pouco tirei do plástico um
Moleskine novinho em folha e comecei a escrever as receitas dos jantares, almoços e cafés-da-manhã mais saborosos dos últimos tempos. Parei de escrever sei lá por quê. Mas esta semana, lendo o que havia escrito com minhas próprias mãos, mas com dois cozinheiros sempre presentes às cenas de ação na cozinha, resolvi continuar. Gostei do que li, do que vivi até agora e gosto mais ainda do que vem pela frente. Outra mudança necessária. Às vezes, é preciso um tombo e algumas lágrimas derramadas para notar que o que é bom precisa ser vivido decentemente – com as glórias e também com os momentos não tão gloriosos assim...
Acertos nas minhas próprias receitas também vêm sendo feitos além do reduto doméstico, bem longe do fogão e das panelas. Coisas que eu adoro fazer terão de ser negociadas, adaptadas a uma nova realidade. No começo, achei que era pessoal (por que essa mania de olhar sempre para o próprio umbigo?). Depois vi que, às vezes, adaptações
têm de ser feitas em benefício do outro, da felicidade alheia. E você, então, fica feliz. E trata logo de correr atrás delas, para não perder o pique no meio do caminho.
Continua...