Outro dia estava assistindo a um filme,
“Girassóis da Rússia”, e o José, ao avistar Sophia Loren em seus dias mais deslumbrantes, disse: “Como é bom ver uma mulher vestida de mulher”. Eu, que adoro um vestido e uma flor no cabelo, gostei do comentário. Principalmente porque veio de um homem de agora que, com todas as modernidades que nos cercam, se delicia com as diferenças que fazem homens serem homens e mulheres serem mulheres. Lembrei desse episódio porque hoje avistei um livro novo na livraria do bairro:
“O maravilhoso livro das meninas” (Editora Globo). Um volume lindamente ilustrado e com um texto muito gostoso que explica, em formato de manual, o que é ser uma menina. Não tem nada de chatice no livro, apenas o óbvio que andamos esquecendo de reparar nestes tempos insanos e cheios de indelicadezas.
No livro, publicado originalmente no Reino Unido e agora traduzido para o português, as autoras, Rosemary Davidson e Sarah Vine, sugerem os mais variados tipos de entretenimentos para meninas. Crianças mesmo (outra novidade nesta temporada comportamental enlouquecida em que mulheres feitas insistem em se autodenominar “meninas”). Assim, elas começam o livro ensinando como se faz um
ponto caseado, como criar uma boneca de pano com as próprias mãos, noções básicas de tricô, como preparar uma jardineira, como saber discernir uma violeta-africana de uma prosaica onze-horas e por aí seguem. Mais a frente ensinam “regras de ouro” na cozinha, dando dicas sobre organização básica na hora de cozinhar, e como preparar um chá da tarde para as amigas. Tem ainda lições sobre maquiagem, como arrumar os cabelos, citações sobre mulheres muito interessantes que não podemos nos esquecer.
Mas o que me fez comprar o livro foi um capítulo dedicado às atividades ao ar livre. Cheio de dicas sobre esportes e brincadeiras para se fazer no jardim e no quintal. Ele começa assim:
“A arte de cair: assim como aprendemos a andar antes de correr, é preciso aprender a cair antes de tentar escalar. Saber cair é uma arte! Quem consegue dominar essa técnica, ganha segurança para aprender novas habilidades e evita ferimentos.” Era para ser uma dica prática. Mas que, traduzida como uma metáfora da lição mais básica para aprender a ser mulher, é o melhor ensinamento do livro.
Ser mulher hoje parece mais fácil do que no tempo das nossas antepassadas. Só parece. E vai ficar cada vez mais difícil se não lembrarmos do primordial, se não tivermos à mão um manual para nos lembrar que mulheres são mulheres e homens são homens. Que a gente pode dar gritinhos ao avistar um bebê ou um bichinho fofo pelo caminho. Que eles podem se sentir no centro do universo quando carregam um javali nas costas depois do expediente para abastecer a despensa da casa. Mesmo que, na maior parte do tempo, um e outro saibam que têm de atuar como personagens de um mundo de igualdades, globalizações e revoluções por minuto.