Existem receitas muito simples e que deveriam estar sempre à mão em casos de emergência. E emergência, nesse caso, pode ser um desses fatos corriqueiros de todo dia. Abrir o armário num dia apressado, por exemplo, e encontrar ingredientes que não combinam entre si. Que, sem pares, ficam nulos na sua função. Você encontra o macarrão e nada de achar um molho que faça dele um prato que você queria comer naquele minuto. Abre a geladeira e enxerga recheios mil, mas cadê o pão que você esqueceu de comprar? Corre para dispensa em busca de ingredientes perdidos que componham uma
receita das mais básicas e nada. Então chega a hora de apelar para o freezer. Lá com certeza você irá descobrir uma ceia de Natal congelada, uma carne já prontinha, um feijão temperado. E aí se lembra que o último dia de fúria culinária, daqueles em que você cozinha como se uma guerra fosse estourar a qualquer momento, já foi faz tempo. Perdida nos acontecimentos, você esquece do que nossas avós sabiam sempre. Em dias como esses, em que a salvação aparece em forma de números de restaurantes que você não está fim de discar, é que entram as receitas salvadoras. Vindas de
manuais de sobrevivência esquecidos na gaveta, entre pilhas de panos de prato. Fazer o próprio pão é uma delas.
O
chapatti indiano entra na lista de salvadores. Quem me ensinou a receita foi a Márcia, massagista e sábia dos conhecimentos da alimentação ayurveda. Pega um pouquinho de farinha, mistura com sal e um tiquinho de água. Amassa, amassa, amassa muito. Até a mão doer e a massa parecer uma massinha de moldar na textura, lisinha e clara, pronta para ir para a frigideira e estufar ao entrar em contato com o calor do fogo. Aí é só passar um pouco de manteiga por cima, apelar para o cream cheese que está quase acabando, juntar com uns ovinhos mexidos e pronto: comida quente e boa na hora. Prova de que você pode sobreviver com os básicos, sem excessos, sem adjetivos desnecessários. Hoje foi meu dia de descobrir os básicos. De viver conforme os acontecimentos do dia. De não ter a ansiedade louca do pré-preparo, do pensar no cardápio, do escrever a listinha de supermercado. Dia de deixar o tempo fluir e de sobreviver, simplesmente. Em outros, certamente terei vontade de experimentar o que ainda não sei. Testar uma receita difícil ou tentar novamente uma que nunca deu certo. Uma hora a gente aprende, afinal. Mas não hoje. Amanhã eu tento fazer rocambole de novo, que a minha amiga
Rita acha muito fácil, e eu não consegui acertar até hoje. Se acertarei na hora, ainda não sei. Deixarei o tempo me dizer.