Escrevo estas linhas enquanto espero o
homem da máquina. Uma espera que já parece eterna. Há um mês este homem entra na minha casa semanalmente. Às vezes duas vezes por semana. Sempre com um sorriso estampado no rosto e um papelzinho para eu assinar assim que ele se despede, sem deixar boa notícias. Ou melhor, deixando um cínico fio de esperança no ar. Esperança de que, talvez, um dia quem sabe, eu volte a ter a minha máquina de volta. Sim, porque ele é o homem da máquina. Mas a máquina é minha. Uma Continental com portinha na frente, companheira de lavanderia durante 10 anos. Pau pra toda obra, capaz de dar conta de quilos de roupa suja pra lavar sem dar um pio.
Mas um dia, minha filha, a máquina, por mais querida que seja, pifa. E você fica a ver navios. Confiando no primeiro homem que jura por todos os santos que ela vai ficar boa de novo. E você acredita. Assim como minhas amigas do
02 Neurônio continuam acreditando que os homens vão ligar de novo. Mulher é mesmo muito trouxa às vezes. Ai que raiva!!! Vem o homem sorridente e a gente acredita. Que ódio!!!!! Neste momento eu quero esganar o homem da máquina, que me fez mais uma promessa hoje de manhã. Muito provavelmente uma
promessa bem falsa, como outras tantas que a gente ouve por aí. E eu aqui, esperando...
O caso é que homens e máquinas nem sempre formam um combinado perfeito. Mais um
mito infantilóide sobre o qual as mulheres costumam depositar sua fé cegamente. Ele brincou de carrinho quando era pequeno. Adorava desmontar e montar novamente tudo quanto é brinquedo. Mas esse ser, teoricamente capacitado, nem sempre resolve a sua vida. Mais uma lenda urbana que corre pelo ralo – da lavanderia. Da MINHA lavanderia, agora sem máquina alguma.
Na cozinha, o drama da máquina gera um capítulo 2 desse
pesadelo doméstico. A máquina de lavar louça também pifou. Dez anos. Parece que esse é o limite de vida para um eletrodoméstico, por mais bem cuidado que seja. Esse caso foi ainda pior. Quatro meses com a máquina nas mãos de outro homem, que mentiu para a minha pessoa, safadamente, durante QUATRO meses (minha mãe já me chamou de lesada, não precisa repetir...)!!!!!!!! Serviço pago, sorriso no rosto e, na volta, uma máquina que funcionou por míseras três horas.
Aí, na mesma semana, vou bater um milk-shake. Só com muito açúcar na veia para agüentar tamanha overdose de
traições, mentiras e sorrisos falsos. E o meu liquidificador de dez anos emite barulhos sinistros. Praticamente um motor funcionando ao contrário. Uma coisa assustadora que nem te conto... Sorte que não deu tempo de enviar leite, ovomaltine e sorvete pelos ares – em plena cozinha, agora vazia de mais um eletrodoméstico.
Resultado do drama: se um eletrodoméstico pifar, não se iluda. Faça como os japoneses, os suíços, os alemães, enfim, pessoas que habitam o chamado primeiro mundo. Jogue fora, doe para alguém, atire pela janela. Mas
NÃO mande consertar. O mundo já é cheio de ilusões. E você não precisa embarcar em mais uma só para repetir o clichê – agora mais do que manjado também nesta casa.