Outro dia recebi de uma revista feminina, para moças que curtem moda, cultura e uma vida muito da animada, a seguinte missão: descobrir entre mulheres com esse perfil, algumas que encostassem a barriga no fogão por puro prazer. Para minha surpresa encontrei diversas personagens, uma mais interessante que a outra. Todas colecionadoras de panelas, tipos que guardam as colheres de pau de suas avós como relíquias e que sabem de cor e salteado o nome de todos os temperos disponíveis nas prateleiras dos supermercados.
Uma delas, porém, demonstou um apego quase terapêutico às panelas, o que me deixou ainda mais interessada em suas histórias. Com vinte e poucos anos no currículo, Andrea chegou à sua casa um pouco atrasada no dia marcado para a entrevista. Eu já a esperava há alguns minutos quando ela atravessou a porta da sala toda faceira, com um pacote de papel pardo em cada mão – ambos recheados com os ingredientes do jantar que ela prepararia durante a nossa conversa. Pasma, fui logo perguntado de onde ela tirava energia para inventar moda na cozinha depois de dez horas de trabalho criando moda para as passarelas. Resposta da estilista em ascensão: “Mas é justamente cozinhando que eu começo a descansar”.
Então fiquei atenta a cada movimento da mocinha que, de fato, iniciava uma espécie de relaxamento na cozinha. Após um maço de salsinha meticulosamente picado e dois punhados de arroz lavados sob a torneira, sua voz já parecia mais suave. Avental amarradinho nas costas, uma ajeitada na pia (para tirar da frente eventuais empecílios para o arroubo culinário) e as palavras começavam a sair em velocidade moderada. Uma mexidinha na panela para conferir o tempero e um gole de vinho depois, e ela já era outra pessoa. Toda animada, começou a enumerar suas receitas favoritas. A lembrar dos feitos mais recentes no trabalho e também dos pratos favoritos da infância, quando ainda era uma aspirante ao posto de chef de sua própria cozinha e também a muitas outras coisas. Hoje, em vez de criar roupas para Barbies e Susis, ela cria modelos apresentados nas semanas de moda mais quentes do país. E também vai para a cozinha com o mesmo entusiasmo com que encara suas criações. Porque sabe que a “mulher de bobes” não existe. E que ficar na cozinha em clima de festa pode ser tão bom quanto ir a uma festa.
Continua...