
Ano Novo, embalos antigos
Poucas horas depois de fazer todos os tipos de pensamentos positivos para que 2004 seguisse seu rumo sem olhar para trás, voltei no tempo ao abrir um presente de Natal tardio. O embrulho pesado, com selo de livraria, dava a pista de um sonho de consumo retrô, que, graças a uma editora com olhar afiado para o interesse de moças e moços do século 21 por coisas boas de outros tempos, havia sido recentemente relançado. Depois de anos sem olhar para a cara da velhota simpática que carregava um suculento bolo confeitado nas mãos, ali estava o meu Dona Benta.
A capa estava um pouco diferente da que cansei de encarar na infância durante o treinamento para o preparo de bolos de chocolate na cozinha da Dona Luiza. Sumiram algumas colheradas de chantilly da cobertura do bolo e também a faixa azul aonde vinha escrito o subtítulo: Comer Bem. O tamanho também mudou. Agora está mais comprido e um tanto afinado nas laterais. Mas o monte de páginas continua. Um mar de receitas que podem parecer inúteis para quem tem outros montes de livros recheados de gostosuras na estante. Mas nenhum deles tão carregado de boas lembranças quanto o velho Dona Benta. Foi nele, afinal, que as nossas antepassadas aprenderam a fazer todos os pratos que sempre temos vontade comer de novo. Do trivial bolinho de batata com arroz de forno e bife ao ultramegaretrô coquetel de camarão – sinônimo de abre alas em muitos Natais, aniversários e festas de Ano Novo. E talvez por isso mesmo tive de ouvir de uma vendedora que o título já estava esgotado na primeira vez em que tentei comprar o meu. Esgotado em menos de um mês e em pleno 2004!
Fiquei chocada, mas animada com a idéia de que, de repente, por nostalgia ou mudança de hábito, tanta gente tenha resolvido mergulhar novamente num universo restrito por anos a moças e avós prendadas que tinham tempo de sobra para testar as mais de 1000 receitas do livrão. Os leitores de hoje certamente não vão levar muito a sério tabelas de cocção ou listas de acessórios para uma cozinha ideal. Mas vão se deliciar com a seção de truques que ensina como tirar cheiro de alho das mãos ou preparar o “chantilly perfeito”. Quase morrer de felicidade ao topar com a lembrança de sabores tão singelos quanto o do Bolo Formigueiro ou dos Figos Cristalizados. E se surpreender ao descobrir que existe uma receita fácil para o preparo de coxinhas – por incrível que possa parecer...
Os novos leitores não devem consultar a bíblia gastronômica diariamente, nem acertar as medidas dos ingredientes conforme as orientações mais do que específicas do capítulo Pesos e Medidas. É muito mais provável que passem com Dona Benta algumas tardes de sábado, antes de chamar os amigos para provar o bolo de laranja igualzinho ao que a sua tia fazia, ou algumas noites durante a semana, aquelas em que é bem mais importante curtir um jantar caprichado feito com suas próprias mãos do que conferir as novidades do cardápio do restaurante da moda da semana. Porque para recordar também é preciso comer.
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Chris Campos
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