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Sempre funciona. Passear pela feira é uma das minhas terapias urbanas favoritas. No meu primeiro livro, dedico um capítulo inteiro a esse simpático comércio de rua. Hoje não foi diferente. Já há um tempo venho sentindo certa agressividade no ar. Você bobeia e um tabefe (modo de dizer...) surge assim, do nada. Como um peteleco na sua cabeça dado por um tio sem-noção no meio de um almoço de domingo. Logo, um pouco de terapia da feira cai sempre bem. Na banca de flores, o simpático senhor japonês adiciona uma rosa cor-de-rosa ao maço de lírios escolhido - mimo para a freguesa fiel. Mais alguns passos e o moço do alho pergunta se eu gostaria de uns dentinhos de alho a mais no meu pacote, para completar R$ 1,50 pelas 100g anunciadas na tabuleta. A questão vem precedida de um "querida", e acho muito simpático da parte dele. Na parada seguinte, a tal agressividade do ar surge do além. Aceno com uma moeda de 50 centavos para a moça da banca de ervas e pergunto quanto de manjericão dá para comprar com tal quantia. Uma assistente desavisada grita lá do fundo da banca: "O mínimo é um real, um real!", muito exaltada. Tpm forte, acredito eu... Sorte que a mãe da moça, bem mais polida, faz uso do "querida" novamente e pergunta: "Está bom assim?", já com meu macinho de folhas embrulhado. Agradeço e vou até a banca do peixe. No caminho, cruzo com os doces. O bloco de gelatina colorida parece sorrir pra mim. Lembro do meu avô Caetano na hora e umas lagriminhas brotam por trás dos óculos escuros. Num mundo cheio de asperezas, atitudes rudes e palavras amargas lançadas ao vento, ele sempre soube degustar a parte boa como se só ela existisse. Era assim com as fatias fininhas de gelatina de feira que ele cortava para mim depois do almoço e com os "pirulitos" de queijo esculpidos antes do jantar. Me deu saudade, muita saudade dessas delicadezas.
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