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Blog da Casa da Chris

11/05/2009

A arte do improviso

  • Uma trilha de acontecimentos não-planejados. Foi isso que avistei da janelinha do trem que vai de NY a Boston. Quatro horas de pensamentos sem virgula, nem travessão, nem dois pontos, como nos livros do Saramago. Sem tempo de respirar, pode-se mergulhar nesse universo particular. O cenário ao redor vira uma coisa que só você pode ver. O papel principal é seu, mesmo nas partes que você não gosta tanto assim. E aí, querida, é preciso improvisar. E improvisar virou uma constante por aqui. Porque é essa a única maneira de lidar com o inesperado, tanto faz se ele é bom ou mais ou menos. Por muito tempo achei que improvisar era algo impensável. Cadernos, agendas, bilhetes grudados na porta da geladeira, dias lotados de acontecimentos ensaiados muito antes da cena. O resultado, quase sempre, rendia diálogos de novela mexicana. "Lágrimas, tensão, medo" e novos episódios com enredos similares a vista. Mas a tal trilha de acontecimentos não-planejados apareceu na janelinha do trem. E tinha de tudo por lá: presente fora do dia do aniversário, flores coloridas em noites sombrias, beijos ótimos em dias tristes, lágrimas em dias planejados para sorrisos, chuva quando o esperado era o sol, entraves burocráticos resolvidos em minutos, sabores inéditos quando você já acha que experimentou de tudo nesta vida. Mas sempre tem mais. E improvisar é preciso, é a única coisa que se pode fazer e também a mais divertida. Esquecer o que tem dentro da mala e enxergar que o que está fora dela é melhor. Ver, sentir e experimentar vale mais do que o tempo gasto em combinações meticulosamente estudadas. A descombinação é uma delícia! É como achar lindo no museu o tubarão que dá muito medo no mar. Ou encontrar na parede um desenho que diz muito mais do que o monte de palavras que eu gosto de ler e de escrever. Ou ouvir "a melhor banda de todos os tempos da última semana" (cantando junto de preferência) só porque você fez o caminho sem olhar no mapa. No GPS, no rules, no fear. Daqui pra frente o copinho de café da Amtrak será o mantra do dia.

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