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Confesso que sou urbana demais. Criatura da cidade, cultivada em quintais de lajotas. Contava estrelas nos livros, assava bolos no forno elétrico de brinquedo. Bichos, fora o cachorro e o canário, só de pelúcia. Infância muito feliz, diga-se de passagem. Mas o resultado dessa urbanidade toda é que hoje sou uma caipira da cidade. Fico feliz igual criança de dois anos quando vejo uma galinha. Se ela vem comer na minha mão então, só falta levantar os braços de alegria.
Forno à lenha pra mim é luxo. Como luz de velas, céu estrelado e pé sujo de terra vermelha. Adoro tentar adivinhar os nomes dos temperos fora dos vidros do supermercado ou dos maços da feira.
Começo a ficar boa nisso. Mas ainda me supreendo com algumas descobertas. A mais recente: reconhecer as diferenças anatômicas das folhas de alfazema e de lavanda. Diziam que era tudo a mesma coisa e eu, tola, acreditava.
Cavalo, vaca e sapo, desses bem gorduchos, acho um deslumbramento de perto. Sempre enxergo todos bem maiores do que nas minhas lembranças infantis, de pessoa que nunca sabia direito como desenhar gente ao lado dos bichos. Será que ficou pequeno ou grande demais?
Secar a louça no sol, abrir janela que não tem vidro, esquentar o pão na bancada do fogão à lenha. Luxo. Só isso a dizer.
No quesito decoração, acho uma festa elencar tabelas de cores favoritas espiando o musgo das pedras de pertinho ou catando pedra no rio depois de lavar os cabelos sem xampu, nem creme rinse. Naturalmente glamourosa. Já experimentou?
E descobrir como se fazem as coisas? Não sabia, por exemplo, que precisava de uma engenhoca tão grande para transformar grão de milho amolecido na água em farinha de milho grossa, daquela boa para cozinhar cuscus paulista.
A estética do campo é um luxo. Vale a pena repetir. Na garagem, só os básicos: bota, lâmpada, regador, balde, uma enxada.
Na mesa, comida boa e conversa de sobra. Sem nada que distraia a pessoa, sabe como? Postar foto no Instagram enquanto prova a salada? Isso não existe em alguns lugares. Em bons lugares, que já começam a virar favoritos desta casa.
O telefone não toca e ninguém sente falta. A campainha não toca. Para compensar, à noite, todos os sons se juntam. Sinfonia que mistura folha, bicho e barulho do vento.
Sentada no banco caipira, que vale prêmio de design em qualquer lugar do mundo, tomo uma caipirinha (em homenagem ao nome) com o limão-cravo da árvore do quintal e não consigo imaginar algo mais luxuoso nessa vida simples e boa.
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